“O pensamento não é simplesmente expresso em palavras,
é por meio delas que ele passa a existir”
Lev Vigotski

A linguagem oral e, posteriormente, a linguagem escrita foram desenvolvidas a partir da necessidade de maior acuidade na comunicação. À medida em que os grupos sociais foram tornando-se mais complexos, sons e gestos passaram a ser insuficientes para a transmissão das mensagens. Assim também surgiu a linguagem escrita, a princípio com pictogramas que após algum tempo já não alcançavam explicar assuntos de maior profundidade intelectual, sendo substituídos por alfabetos. Entretanto, a contemporaneidade nos intriga com uma espécie de retorno ao passado, onde imagens, gestos e um vocabulário rudimentar parecem conseguir alcançar tudo o que se tem a dizer.
A sociedade de consumo, a despeito de sua complexidade, nos fez imergir em um mundo de símbolos e estímulos visuais tão eficientes para a manutenção do status quo, que nos parece inútil, ou mesmo contraproducente, tentar macular a comunicação com doses afetadas de um código verbal mais elaborado. Propaganda alguma faria sentido se nos levasse a uma reflexão em vez de levar-nos a uma reação instintiva. Da mesma forma, veículos de comunicação instantânea perderiam seu objetivo caso seus usuários elaborassem cada frase com o zelo de quem escreve uma carta. Uma linguagem verbal mais complexa, que contemplasse nuances mais profundas da nossa mensagem, nos exigiria tempo e concentração; contudo, tempo é dinheiro, e concentrar-se em um tema quando há tantos outros pululando diante de nossos olhos torna-se tarefa deveras penosa. Precisamos facilitar a comunicação e, ao que parece, um modo eficiente de fazê-lo é simplificar os códigos.
Mas será que uma linguagem gestual, pictórica ou incipiente consegue transmitir um pensamento profundo e sofisticado? Os códigos mais elaborados não nasceram justamente da necessidade de comunicarmo-nos com mais acuidade? Talvez a priorização da quantidade em detrimento da qualidade pelas sociedades contemporâneas comece a explicar essas questões. Valemos o quanto consumimos. Esforçamo-nos para consumir o máximo que pudermos no menor espaço de tempo possível. Essa velocidade à qual nos submetemos nos automatiza e nos leva a abdicar de nossa autonomia de forma voluntária. Uma linguagem mais primitiva acaba dando conta de expressar os nossos pensamentos simplesmente por não nos dedicarmos a aprofundá-los.
O surgimento da escrita demarcou a fronteira entre pré-história e história. A partir dela, fomos capazes de nos entender melhor, de nos questionarmos, de analisarmos os pensamentos de nossos antepassados. Ao desenvolvermos repertório, estamos honrando nossas conquistas e, ao mesmo tempo, nos protegendo de mecanismos criados para tornar-nos vulneráveis e autômatos. Ao ampliarmos nosso repertório, podemos nos aprofundar melhor no conhecimento de nós mesmos. Quem não consegue ler nas entrelinhas ao debruçar-se sobre um clássico da literatura, por exemplo, dificilmente poderá fazê-lo ao olhar para suas próprias questões. Dominar a palavra nos dá autonomia para decidirmos, inclusive, se queremos retornar à caverna.