
Para que a verdade seja dita, é necessário conhecer a verdade de que se fala. Portanto, é preciso responder primeiro a outra pergunta: é possível conhecer toda a verdade? Ou ainda, existe uma verdade última a ser conhecida em todas as coisas? Fato é que a ideia de verdade promove um certo conforto, um direcionamento que nos leva a uma certa segurança diante de nossa condição vulnerável. A busca pela verdade torna-se, então, algo próprio do ser humano.
Talvez possamos entender que, a partir da experiência, certezas sejam consolidadas, ou possamos afirmar como verdade fatos cientificamente comprovados que, diante de todos, não deixem restar dúvidas quanto a sua veracidade, ao menos até que novos acontecimentos os contestem. Dessa forma, teríamos a verdade que pode ser dita até que outra surja em seu lugar.
Contudo, há também a busca pela verdade de conceitos, aqueles que não podemos mensurar ou atestar a partir de experimentos ou mesmo da experiência. Para esses, a verdade parece ser maleável, flexível, a ajustamos de acordo com o momento e as contingências. Escolhemos o que melhor se adequa ao nosso repertório, nosso temperamento e visão de mundo. Talvez exista uma verdade sólida no núcleo de tais conceitos e nós consigamos acessar apenas a periferia. Quem sabe, nesse caso, a verdade tenha sido enterrada com os criadores de tais conceitos e nós tenhamos ficado não com a mentira, mas com a incerteza?
Existe ainda a verdade de que temos posse, aquela que diz respeito a nós mesmos, aquela que tentamos compartilhar como um pedido de atenção, de aconchego, de acolhimento. Essa verdade por vezes nos foge, e alcançá-la torna-se o trabalho de uma vida. Uma vez alcançada, ainda que de forma fragmentada, contá-la converte-se em um trabalho ainda mais penoso, porque toda tradução é uma interpretação, e cada um de nós possui vernáculo próprio. Entretanto, supondo que pudéssemos, efetivamente, contar toda a verdade, embarcaríamos em outro questionamento: devemos contá-la? Contar toda a verdade pode ser importante, mas também pode ser desnecessário, ou mesmo algo a se evitar.
Particularmente, gosto de acreditar que exista uma verdade nuclear para todas as coisas: quanto mais banal o seu teor, mais exposto está o núcleo, e mais facilmente temos acesso a ele; quanto mais complexo seu teor, mais escondido está o núcleo, exigindo de nós o domínio de uma linguagem tanto mais complexa quanto mais enredado seja seu conteúdo. Assim, em vez de afirmar a impossibilidade da verdade, podemos simplesmente lidar com a verdade da nossa limitação.