Tudo me é familiar

“Eu sou humano, e nada do que é humano me é estranho” Terêncio

Embora Terêncio não tenha sido um psicólogo, esta é uma frase que merece a atenção de todos os profissionais, estudantes e entusiastas da psicologia. Não podemos deixar que nosso repertório se limite a livros técnicos e conceitos irrefletidos propagados em redes sociais. Pode parecer clichê dizer que o desenvolvimento constante de autoconhecimento é imperativo na prática da psicoterapia, mas a verdade é que nem sempre essa é uma preocupação (ou ocupação) genuína na formação do psicólogo.

Quando nos entendemos humanos a partir de um mergulho profundo em nós mesmos, encontramos as sementes que habitam todos os outros seres, sejam elas boas ou más. A partir daí, podemos oferecer uma escuta mais honesta, menos julgadora e mais acolhedora; nos despimos do manto de moralismos que usamos para nos esconder de nós mesmos e podemos, descobertos, nos reconhecer no outro. Em contrapartida, esse mesmo movimento nos permite delimitar as linhas de contraste que nos separam dos outros, importantíssimo para que o protagonismo da sessão de psicoterapia não seja deslocado para o psicotareapeuta.

O conceito de Teoria da Mente (ou mesmo, de forma mais elementar, o sistema de neurônios-espelho, no âmbito neurobiológico) nos ajuda a entender nossa capacidade de atribuir estados mentais a nós mesmos e aos outros e a desenvolver essa capacidade. A literatura de ficção é um aliado muito competente nesse processo. Podemos atribuir estados mentais a personagens da mesma forma que fazemos com pessoas reais. Ao conhecermos personagens bem construídos, com personalidades complexas, encontramos em contato com nossos desejos e medos, com nossos valores e crenças, e eles são, muitas vezes, questionados a ponto de desconfigurar nossas certezas. Passamos a caminhar com os personagens e, por momentos, vemos através de seus olhos e sentimos com seus sentidos, sejam seus atos admiráveis ou condenáveis.

Especialmente nos dias atuais, há uma tendência a um julgamento precipitado do outro (para o bem ou para o mal), aliado a uma espécie de exaltação de si, que serve de parâmetro para tal julgamento. Ora, todos somos narcisos, eu e você, e narciso acha feio o que não é espelho, ou aquilo que não dá conta de reconhecer em si mesmo. Veja bem, é uma defesa, tanto do outro quanto de si, e isso também é humano, mas empobrece a leitura, além de ser um modo de inviabilizar o encontro, o vínculo e, em última instância, o processo terapêutico.

É sabido que a literatura de ficção fortalece habilidades sociais e cognitivas, trazendo ganhos em empatia, teoria da mente e funções executivas. Um profissional ocupado em desenvolver tais habilidades, para além de testes e teorias, dificilmente estranhará tudo aquilo que seja humano.

Não confio em psicólogo antipático

       Disse Fernando Pessoa em nota preliminar de seu livro Mensagem: “O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles. A primeira é a simpatia (…) tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe a interpretar.” Pessoa chamava de simpatia essa rara condição de estar disponível para o símbolo — o que, para nós, é estar disponível para o outro.

Simpatia (s.f.)

1.Sentimento de atração moral que duas pessoas sentem uma pela outra.    2.Tendência natural para uma coisa.

       Os títulos são importantes, eles atestam que, pelo menos, você foi exposto ao conhecimento mínimo necessário para exercer uma profissão ou atividade. Eles oferecem uma certa segurança para quem contrata, estabelece alguns parâmetros, enfim, são obviamente necessários, sem eles, cairíamos na autodeclaração, e seria um Deus nos acuda. Porém, nenhum título faz de você um bom profissional. Hoje em dia, conseguimos certificados mil em cursos de duas horas. Há uma profusão de títulos, inclusive stricto sensu, e pouco compromisso com as relações humanas.

       Existem profissões nas quais os profissionais podem se dar ao luxo de ser antipáticos, mas, definitivamente, esse não é o caso da Psicologia. Como estudante, não confio em psicólogo antipático, não importa o cargo que ocupe nem a instituição que represente. Não confio.

       A prática da Psicologia exige uma abertura ao outro, uma boa dose de humildade para dar protagonismo ao outro; um despir-se de si; um tardar no julgar que no final das contas nos ajuda a entender que não somos o centro do mundo, o princípio e o fim de todas as coisas. Não se trata apenas de conhecimento científico, embora seja essencial, mas de abraçar a consciência da nossa ignorância e manter o desejo de conhecer. Não é ter que estar bem o tempo todo, impossibilidade comum a todos, mas é sim procurar ser melhor a cada dia, é levar a sério a desmesurada responsabilidade de tocar nas partes mais sensíveis da alma de uma pessoa, que pode estar frágil o suficiente para ser contaminada pelos germes de profissionais irresponsáveis.

        Mas a simpatia por si só não faz de ninguém um bom profissional, é só o início, uma qualidade sine qua non, como disse Pessoa em relação à interpretação. A simpatia é uma expressão estética da alma aberta. Ela se manifesta no olhar, no tom de voz, na presença, não é performance, é transparência, e é um modo de ser, algo genuíno e profundo que nos permite a doação necessária para que haja um começo de vínculo. Sem vínculo, não há psicoterapia. O antipático, por sua vez, rompe essa transparência. Ele transforma a clínica num palco de poder, e não num espaço de encontro. Um antipático pode até vomitar títulos e apresentar uma atitude soberba para tentar te convencer (ou convencer-se) de que sua antipatia é, na verdade, autoridade. Não acredito, não compro, não recomendo, ainda que fale a língua dos anjos e fale a língua dos homens.

Antipatia (s.f.)

1. Aversão espontânea, irracional, gratuita por alguém, malquerença, repulsão. 2. Comportamento que expressa essa aversão. 3. Repulsão orgânica entre corpos ou substâncias; incompatibilidade.

       A Psicologia, como ciência do humano, não pode nascer de um olhar que repele o humano. Um psicólogo pode não ter todas as respostas, mas precisa ter essa disponibilidade silenciosa de acolher, sem pressa, sem máscara, sem medo. É nessa fresta de humanidade que o outro se sente visto, e é ali que o trabalho começa. A simpatia, entendida como abertura de alma, é a primeira ética da Psicologia.

É possível contar toda a verdade?

Foto por Kevin Malik em Pexels.com

Para que a verdade seja dita, é necessário conhecer a verdade de que se fala. Portanto, é preciso responder primeiro a outra pergunta: é possível conhecer toda a verdade? Ou ainda, existe uma verdade última a ser conhecida em todas as coisas? Fato é que a ideia de verdade promove um certo conforto, um direcionamento que nos leva a uma certa segurança diante de nossa condição vulnerável. A busca pela verdade torna-se, então, algo próprio do ser humano.

     Talvez possamos entender que, a partir da experiência, certezas sejam consolidadas, ou possamos afirmar como verdade fatos cientificamente comprovados que, diante de todos, não deixem restar dúvidas quanto a sua veracidade, ao menos até que novos acontecimentos os contestem. Dessa forma, teríamos a verdade que pode ser dita até que outra surja em seu lugar.

     Contudo, há também a busca pela verdade de conceitos, aqueles que não podemos mensurar ou atestar a partir de experimentos ou mesmo da experiência. Para esses, a verdade parece ser maleável, flexível, a ajustamos de acordo com o momento e as contingências. Escolhemos o que melhor se adequa ao nosso repertório, nosso temperamento e visão de mundo. Talvez exista uma verdade sólida no núcleo de tais conceitos e nós consigamos acessar apenas a periferia. Quem sabe, nesse caso, a verdade tenha sido enterrada com os criadores de tais conceitos e nós tenhamos ficado não com a mentira, mas com a incerteza?

     Existe ainda a verdade de que temos posse, aquela que diz respeito a nós mesmos, aquela que tentamos compartilhar como um pedido de atenção, de aconchego, de acolhimento. Essa verdade por vezes nos foge, e alcançá-la torna-se o trabalho de uma vida. Uma vez alcançada, ainda que de forma fragmentada, contá-la converte-se em um trabalho ainda mais penoso, porque toda tradução é uma interpretação, e cada um de nós possui vernáculo próprio. Entretanto, supondo que pudéssemos, efetivamente, contar toda a verdade, embarcaríamos em outro questionamento: devemos contá-la? Contar toda a verdade pode ser importante, mas também pode ser desnecessário, ou mesmo algo a se evitar.

     Particularmente, gosto de acreditar que exista uma verdade nuclear para todas as coisas: quanto mais banal o seu teor, mais exposto está o núcleo, e mais facilmente temos acesso a ele; quanto mais complexo seu teor, mais escondido está o núcleo, exigindo de nós o domínio de uma linguagem tanto mais complexa quanto mais enredado seja seu conteúdo. Assim, em vez de afirmar a impossibilidade da verdade, podemos simplesmente lidar com a verdade da nossa limitação.

O poder do verbo

“O pensamento não é simplesmente expresso em palavras,

é por meio delas que ele passa a existir”

Lev Vigotski

A linguagem oral e, posteriormente, a linguagem escrita foram desenvolvidas a partir da necessidade de maior acuidade na comunicação. À medida em que os grupos sociais foram tornando-se mais complexos, sons e gestos passaram a ser insuficientes para a transmissão das mensagens. Assim também surgiu a linguagem escrita, a princípio com pictogramas que após algum tempo já não alcançavam explicar assuntos de maior profundidade intelectual, sendo substituídos por alfabetos. Entretanto, a contemporaneidade nos intriga com uma espécie de retorno ao passado, onde imagens, gestos e um vocabulário rudimentar parecem conseguir alcançar tudo o que se tem a dizer.

     A sociedade de consumo, a despeito de sua complexidade, nos fez imergir em um mundo de símbolos e estímulos visuais tão eficientes para a manutenção do status quo, que nos parece inútil, ou mesmo contraproducente, tentar macular a comunicação com doses afetadas de um código verbal mais elaborado. Propaganda alguma faria sentido se nos levasse a uma reflexão em vez de levar-nos a uma reação instintiva. Da mesma forma, veículos de comunicação instantânea perderiam seu objetivo caso seus usuários elaborassem cada frase com o zelo de quem escreve uma carta. Uma linguagem verbal mais complexa, que contemplasse nuances mais profundas da nossa mensagem, nos exigiria tempo e concentração; contudo, tempo é dinheiro, e concentrar-se em um tema quando há tantos outros pululando diante de nossos olhos torna-se tarefa deveras penosa. Precisamos facilitar a comunicação e, ao que parece, um modo eficiente de fazê-lo é simplificar os códigos.

     Mas será que uma linguagem gestual, pictórica ou incipiente consegue transmitir um pensamento profundo e sofisticado? Os códigos mais elaborados não nasceram justamente da necessidade de comunicarmo-nos com mais acuidade? Talvez a priorização da quantidade em detrimento da qualidade pelas sociedades contemporâneas comece a explicar essas questões. Valemos o quanto consumimos. Esforçamo-nos para consumir o máximo que pudermos no menor espaço de tempo possível. Essa velocidade à qual nos submetemos nos automatiza e nos leva a abdicar de nossa autonomia de forma voluntária. Uma linguagem mais primitiva acaba dando conta de expressar os nossos pensamentos simplesmente por não nos dedicarmos a aprofundá-los.

     O surgimento da escrita demarcou a fronteira entre pré-história e história. A partir dela, fomos capazes de nos entender melhor, de nos questionarmos, de analisarmos os pensamentos de nossos antepassados. Ao desenvolvermos repertório, estamos honrando nossas conquistas e, ao mesmo tempo, nos protegendo de mecanismos criados para tornar-nos vulneráveis e autômatos. Ao ampliarmos nosso repertório, podemos nos aprofundar melhor no conhecimento de nós mesmos. Quem não consegue ler nas entrelinhas ao debruçar-se sobre um clássico da literatura, por exemplo, dificilmente poderá fazê-lo ao olhar para suas próprias questões. Dominar a palavra nos dá autonomia para decidirmos, inclusive, se queremos retornar à caverna.

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